Domingo, Maio 11, 2008
Manias Há sempre quem tenha (ou acabe desenvolvendo por hábito) algum tipo de ritual em sua vida do qual não consegue se desvencilhar. Costuma-se denominar isso de TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) mas eu prefiro chamar simplesmente de mania.Alguns não conseguem se sentir tranquilos se não trancarem e destrancarem as portas de casa repetidas vezes antes de ir dormir, outros não se sentem seguros de si se não clicarem em "salvar arquivo" cinco vezes seguidas antes de fecharem um documento no computador. Eu, por exemplo, só com muito esforço consigo ir dormir sem verificar se todos os acendedores de gás do fogão estão desligados. Até aí não haveria nada de tão alarmante, se não fosse pelo fato de demorar de 10 a 15 minutos para me certificar de que não há vazamento de gás. Começo sempre observando o primeiro de cinco acendedores (da esquerda para a direita) se ele encontra-se na posição com a bolinha para cima (espécie de seta indicadora de intensidade da chama onde a posição vertical para cima equivale a desligado) e avanço para os demais acendedores a medida que me certifico que os anteriores estão devidamente desligados. Um procedimento tão simples como esses não levaria sequer um minuto para ser realizado. Entretanto, por algum motivo que não sei explicar, não consigo parar de voltar sempre ao primeiro acendedor. Ainda que eu não tenha fechado uma seqüência, sempre sinto uma necessidade irresistível de voltar para o primeiro acendedor e começar tudo outra vez. Mesmo que eu tente ignorar a vontade de interromper e recomeçar o procedimento, continuo sentindo a mesma inquietação como se não tivesse verificado coisa alguma. Normalmente, só consigo terminar o procedimento quando me dou de conta do quão ridícula e patética a situação me parece ou quando me lembro de outros fatores que facilitam meu julgamento (ausência de cheiro ou barulho de gás vazando). Algoritmo ideal para verificar se o gás não está vazando:
FAZER N VARIAR DE 1 ATÉ 5 COM PASSO 1
VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR N (LIGADO/DESLIGADO) SE STATUS DO ACENDEDOR N ESTÁ LIGADO ENTÃO DESLIGAR ACENDEDOR N FIM - SE FIM - FAZER Resultado esperado:
VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 1: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 2: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 3: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 4: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 5: [DESLIGADO]
O que acontece na prática:
VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 1: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 2: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 3: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 4: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 1: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 2: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 1: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 2: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 3: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 1: [DESLIGADO] VERIFICAR STATUS DO ACENDEDOR 1: [DESLIGADO] ... Comecei a cogitar várias explicações. A primeira delas é de estar enlouquecendo, mas dificilmente um louco admitiria tal hipótese. Imaginei que talvez meus circuitos neurais responsáveis pela aplicação do algoritmo acima tenham sido de alguma forma afetados por um estado emocional perturbador mas isto não passa de especulação pretensiosa de um leigo. Meu último palpite é de que, seja qual for o mecanismo responsável por tal conduta inesperada, muito provavelmente isso está relacionado com minha insegurança, contra a qual luto desde tenra idade. A insegurança sempre foi o meu maior inimigo. É graças a ela que sofro de ansiedade, embaraços e crises de timidez diante de situações imprevistas ou desagradáveis. Já acreditei ter vencido a insegurança em outras épocas de minha vida onde o exercício de certas atividades sociais (apresentações de trabalhos universitários e participações em cursos com abordagem psicológica inovadora) tenham funcionado como terapia, mas o advento inesperado de situações hostis externas dispararam novamente as velhas reações que me causavam constrangimento e frustração. Diante disso, nunca me enganei achando que um dia iria vencer a timidez. Mas só o fato de continuar de pé lutando incessantemente contra suas causas já me faz vitorioso.
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Terça-feira, Outubro 03, 2006
A Realidade de cada um Pelo menos uma vez na vida, cada um de nós já se sentiu compelido a indagar sobre os enigmas que rondam a existência humana. De onde viemos? O que somos? Por que existimos? Para onde vamos? São questões perguntadas por gerações de indivíduos nas mais diversas culturas, que engendraram múltiplas visões religiosas, filosóficas e científicas sobre o tema.Dessas questões, muitas outras podem ser derivadas mas para fins de simplificação desta pequena exposição de conjecturas, elas podem ser reduzidas a uma única questão primordial: o que é a verdade? A verdade é o que entendemos como aquilo que é real. Se alguma coisa é real, ela deve ser a mesma em qualquer lugar e em qualquer tempo, portanto, a verdade supõe-se única. Entende-se como verdadeiro tudo aquilo que independe de nossas convicções e pode ser observado da mesma forma por todos os indivíduos. A busca por essa verdade suscitou a humanidade a tentar desvendá-la por distintas fontes, seja pela fonte inspiracional por meio das religiões; seja pela fonte investigativa por meio das ciências; seja pela fonte dedutiva por meio das doutrinas filosóficas. Em todas elas, predomina a concepção de que a verdade, em um nível muito profundo, é absoluta, embora nos pareça impossível conhecê-la em sua essência. Tal impossibilidade se explica pelas limitações que permeiam toda experiência humana. Tudo o que conhecemos é fruto de nossas observações e do nosso pensar. A realidade que conhecemos está circunscrita aos nossos sentidos. Nossa visão do cosmo nem sempre é precisa e constantemente necessita ser revisada, pois nossa humanidade é limitada por sua capacidade cognitiva, e o universo, cuja existência independe da nossa, não tem obrigação de estar ao alcance de nossa intelectualidade nas tentativas de explicá-lo por completo. Assim, compreende-se que por trás de uma verdade única que rege a existência do cosmo, podemos apenas vislumbrar projeções muito turvas dela, porém muito úteis, as quais conhecemos como verdades relativas. Uma vez estava discutindo com um amigo meu o que será que aconteceria conosco depois da morte. Ele me contou que achava que cada um iria para onde acreditaria que fosse. Achei, então, a proposição absurda, pois imaginei que independente da visão religiosa ou filosófica que o indivíduo mantivesse, só deveria existir uma única verdade que se aplicasse a todos (no caso, é claro, a minha), principalmente porque diversas visões são conflitantes. Hoje percebo que meu amigo estava sendo muito mais coerente. Quando se está profundamente intrigado com questões sobre o que pode ser absolutamente verdadeiro ou não, sobre o que realmente existe ou não, pode nos parecer superficial e ilusório o conceito de verdade relativa. Mas não é. Por mais que queiramos sustentar uma posição como sendo unicamente autêntica, ela no máximo poderá ser válida dentro do nosso contexto. Podemos até afirmar qualquer coisa que possa ser comprovada por muitas pessoas, porém, mais cedo ou mais tarde ela será substituída por outra idéia melhor. Trata-se da surpreendente constatação de que por trás de nossa objetividade, se esconde uma subjetividade tentando ser muito bem comportada na busca pelo saber. O relativismo (conformado a um conjunto de princípios éticos, é claro) é o que predomina em nossas relações humanas e deverá ser sempre assim. Em todos os campos do conhecimento, nada escapa a este relativismo, nem mesmo a ciência, pois os próprios paradigmas que a constituem (isto é, a forma de se fazer ciência, não o conhecimento obtido com ela) são frutos de intensas revisões que nem sempre se acumularam perfeitamente ao longo da história, o que não deveria se esperar, quanto a sua metodologia, de uma forma de adquirir conhecimento tida como a mais precisa. Por mais bem-sucedidos e válidos que sejam os atuais paradigmas científicos, daqui a cem ou mil anos eles já terão se tornado incompletos e obsoletos, a menos que a humanidade não tenha progredido mais. Logo, no que diz respeito às questões mais profundas da existência humana, nenhum de nós pode pretender ser porta-voz de um saber absoluto. Ninguém jamais conseguiu responder de forma satisfatória a essas perguntas e certamente a resposta não pode ser tão simples nem mesmo pode estar dentro de nossa compreensão. No entanto, o fato mais importante é que o grau de certeza que se pode ter sobre estas respostas é irrelevante para a vida de qualquer indíviduo. Quando o objeto de nossas indagações escapa a todas as nossas percepções que permitiriam um parecer conclusivo, em última instância recorremos a nossas crenças (sejam na afirmação ou na negação disso ou daquilo). E são justamente nossas crenças individuais que moldam a maneira como encaramos nossa existência, a forma com que percebemos nossa realidade. Não importa o quão diferente, intrigante e estranho possa ser a realidade vista de um plano superior e absoluto, elas não nos preocupam pois estamos condicionados a nossas verdades relativas, as quais são suficientes. E não importa o quanto tentemos ser cuidadosos em nossas observações e julgamentos, jamais encontraremos a confirmação total e unânime para nossas convicções, uma vez que todas as nossas descobertas pessoais serão válidas apenas para nós mesmos e talvez para aqueles que partilham de nossas opiniões, durante o tempo em que vivermos. Esta postura implica numa necessidade de deslocarmos nossa atenção para o que realmente importa em nossas vidas: um propósito. De que serve desdobrar-se em vãs tentativas de sondar o indesvendável, qual o objetivo de pretender responder de forma última às questões mais fundamentais de nossa existência se nossas próprias idéias relativistas podem ser suficientes para resolver nossos problemas? É evidente que ninguém deve jamais deixar de pensar, refletir e questionar, mas não há nada de errado em buscar um conhecimento válido em nossas vidas que se apresente na forma com que mais nos identificamos. Nesse sentido, o cosmo é profundamente generoso, porque não nos impõe uma única visão de mundo para interpretá-lo. Pelo contrário, ele permite que cada consciência humana busque livremente dentro de si mesma a sua forma individual de percebê-lo. Trata-se da verdade relativa de cada um, da realidade de cada um, pois o que realmente tem o potencial de influenciar nossas vidas é o que acreditamos ser real. Do ponto de vista humano, o meu amigo compreendeu muito mais a natureza da pergunta.
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Quarta-feira, Março 29, 2006
Verdade ou Mentira? Na maior parte das vezes que recebo cartas-corrente por e-mail, me dou ao trabalho de verificá-las para certificar-me de que não são fraudes. Pode ser uma tarefa chata, insistente, mas em muitos casos pode ser bastante rápida graças aos diversos sites que já existem e servem de repositório de lendas urbanas e histórias mentirosas já conhecidas.E quase sempre que identifico uma fraude tida como verdadeira pelo remetente, não me importo de redigir uma resposta mostrando os porquês daquilo ser uma mentira, com base no material encontrado na internet. Imagino que algumas outras pessoas (poucas, acho) devem fazer o mesmo que eu pelo mundo afora, mas o que eu não entendo é como as pessoas têm tempo para encaminhar as fraudes (que elas supõem serem verdadeiras) para suas listas de contatos e se esquecem de dar ao menos um tratamento igual às mensagens retificadores daquelas mesmas fraudes. Tudo me leva a crer que vivemos em tempos onde a busca pela verdade não tem mais valor ou serventia no cotidiano das pessoas. A internet hoje transborda de toneladas de informação de todos os tipos, mas nem sempre quantidade está associada à qualidade. E como na visão das pessoas tudo é relativo (isto é, o mundo tem que ser relativo com elas, já que algumas delas defendem idéias absolutas), cada um busca ou aceita qualquer informação que satisfaça suas convicções (mesmo as mais exageradas ou radicais), sem se preocupar em investigar a fundo aquilo que chega aos seus olhos, afinal, isso dá muito trabalho. Vivemos sob o império da facilidade e da comodidade, com pitadas de falta de interesse e de superficialismo, onde tem mais valor o impacto que a informação repassada pode causar aos destinatários do que o teor de veracidade que ela apresenta. Por conta desse desinteresse pela verdade, tem horas que dá vontade de desistir de avisar os outros, de simplesmente apagar a mensagem e deixar pra lá. Se por um lado já é difícil lutar contra a influência das fraudes, por outro é mais difícil ainda entender as pessoas.
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Segunda-feira, Janeiro 23, 2006
Concursos Públicos Desde o momento em que percebi que minhas chances de conseguir um bom emprego tinham reduzido drasticamente, passei a enxergar nos concursos públicos minha única saída para um futuro melhor. O próprio setor privado contribuiu para essa visão, graças aos seus ditames vergonhosos, suas imposições desumanas e seus costumes predatórios. Fazendo um trocadilho, não é difícil ver hoje em dia que quem trabalha no setor privado torna-se privado de qualidade de vida, uma coisa que atualmente só o setor público tem condições de garantir.Entretanto, em virtude de um setor privado cada vez mais decepcionante, a procura por vagas no serviço público cresce incessantemente. E como conseqüência, a realização de concursos públicos se tornou uma máquina de fazer dinheiro. Observando alguns debates no orkut sobre o assunto, não pude deixar de concordar com certas opiniões de quem não acredita mais em concursos públicos. Não que eu tenha desistido ou deixado de acreditar em concursos, mas parece inegável que atualmente eles estejam muito descaracterizados. Em geral, um concurso público oferece de dezenas a centenas de vagas em cada área de atuação. Mas ultimamente (e justamente numa fase onde a concorrência entre candidatos é talvez a maior de todos os tempos, retrato flagrante do desemprego), é comum vermos seleções públicas que oferecem de menos de uma dúzia até uma única vaga por área. Levando em conta as taxas de inscrição cada vez mais caras, chega a ser desanimador. Somando-se a isso, há também a modalidade de cadastro de reserva, que são aqueles concursos que não oferecem contratação imediata. Só que se não há vagas, qual o sentido de se fazer um concurso? Não seria mais sensato esperar abrirem vagas para compor um edital? É até compreensível a economia de gastos com a abertura de um processo seletivo quando se misturam vagas existentes com outras que ainda estão por vir, mas o que dizer de concursos que só oferecem cadastro de reserva? E a lista de práticas duvidosas não termina por aqui. Em alguns concursos, é comum que certas vagas sejam destinadas a determinados perfis de candidatos, desde os recém-formados até os mais experientes e com títulos acadêmicos de sobra. Quando isso acontece, normalmente o edital especifica que existem pré-requisitos para o preenchimento dessas vagas. Mas já aconteceu uma vez de me deparar com um edital que, apesar de garantir que as vagas não possuíam pré-requisitos, apresentava uma programação de prova tão extensa em conhecimentos e particularidades de uma vivência profissional que só quem fosse experiente teria chances de ser bem sucedido nas provas. Daí a deduzir que tal prática se explica por um possível mascaramento de requisitos para obter maior arrecadação com inscrições é inevitável. Mas pior do que isso tudo são os casos em que os candidatos são aprovados com excelente classificação e ainda assim não são convocados. Depois de passarem por um processo tão exaustivo e estressante que é se preparar para uma bateria de provas em concursos públicos, nada é mais desrespeitoso e desestimulante do que recompensá-los com o silêncio. Por outro lado, diversas pessoas conquistaram seu espaço no serviço público, sem precisarem passar por tantas agruras. E é justamente nelas que a maioria se espelha e alimenta a esperança de um dia mudar sua vida. Parece que o momento é de ambiguidade nas seleções públicas, onde ninguém pode se certificar se o objetivo real de um concurso será mesmo de contratação ou não passará de mera arrecadação. E no meio de tanta incerteza, uma massa de esperançosos e desesperados não tem outra escolha a não ser arriscar a sorte porque só nos é possível descobrir a verdade se tentarmos e, até que tenhamos tentado, tudo não passará de especulação. Só nos resta torcer e, se possível, cobrar providências do poder público para que os últimos e os próximos concursos não se assemelhem cada vez mais a uma loteria da sorte.
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Sexta-feira, Setembro 09, 2005
Desarmamento Uma das discussões mais recorrentes nos meios de comunicação tem sido o referendo sobre a venda legal de armas. A principal tônica desta discussão é a possível relação entre o comércio de armas e a violência urbana, que não pára de crescer. Até aí, já se tem pano suficiente para mangas em matéria de debates e propostas de soluções. Contudo, eu confesso que o que a mídia vem expondo não me agrada muito.Em qualquer debate sério, cada lado possui a obrigação de explicar e provar seus argumentos em prol da verdade e da imparcialidade. Parte-se do princípio que, uma vez esclarecida uma questão, não resta dúvidas sobre seu encadeamento lógico (premissas, inferência e conclusão), por mais que o autor tenha se equivocado ou tenha desconsiderado algum detalhe que possa contrariar seu ponto de vista. Isto porque não há obrigação de se estar certo numa discussão, o que se espera é um mínimo de compromisso com a coerência de tal maneira que as argumentações sejam as mais próximas possíveis da verdade. Mas no atual debate sobre desarmamento, o que está ocorrendo é uma verdadeira campanha propagandística sem se procurar refletir sobre as reais causas da violência. Querem transformar a questão num dilema moral (maniqueísta, diga-se de passagem) sem que se apresente argumentações sólidas que comprovem a correlação entre violência urbana e porte legal de armas. Tudo que ouço falar é que o comércio legal de armas contribui para o aumento da violência, e só, mais nada além disso, sem se apresentar qualquer fato ou estatística que implique, sem sombra de dúvida, na relação direta entre porte legal e criminalidade. E sinto minha inteligência ser insultada, cada vez que vejo uma propaganda em prol do desarmamento, geralmente realizada com frases de efeito e apelos à consciência (falácias) de quem sustenta uma posição contrária. Enquanto não existir uma preocupação honesta em se convencer os adversários do desarmamento com justificativas consistentes, manterei meu voto pela preservação do comércio legal de armas. Posso até mudar de idéia, mas será necessário apresentarem-me uma proposta séria e realista de compromisso no combate a violência que não seja pelas idealizações românticas, como se proibir pessoas em sã consciência de guardarem armas de fogo em casa para sua própria proteção (considerando que elas foram devidamente instruídas de como utilizar tais armas, que é o que se espera de uma legislação séria sobre porte de armas de fogo) pudesse aumentar a segurança pública contra assaltos, sequestros, assassinatos e outras formas de violência perpetradas geralmente por criminosos. A opção pelo desarmamento pressupõe uma relação de confiança no estado que inexiste na prática, principalmente em cidades, como o Rio de Janeiro, dominadas pela violência de bandidos superequipados, contra os quais não se vê qualquer esforço político disposto a lutar. Fica difícil acreditar numa saída para o crescimento da violência pelo desarmamento quando a ousadia dos criminosos se distancia cada vez mais para além do limite da tolerância, fato que se torna ainda mais crível quando se há a garantia de que nenhum cidadão de bem poderá se defender em suas próprias casas. Se o argumento é de que armas só devem ser usadas pelas autoridades ou por profissionais competentes, então por favor, lutem primeiro pelo desarmamento dos bandidos, pois estes figuram acima dos cidadãos comuns no quesito ameaça ao bem comum. É preciso que haja mais humildade nestes debates, pois o que se busca numa discussão é alcançar a verdade. E para isso, não se deve transformá-la numa competição, onde vence aquele que se considera mais dono da verdade do que os outros, e sim tratá-la como um trabalho de colaboração onde todos participam para atingir um fim comum, não importando o ponto de vista que defendam. Se a causa é justa e a linha de raciocínio é impecável, então não há motivos para não se haver transparência na formação de opiniões, principalmente dentro do grande público.
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Domingo, Setembro 04, 2005
Quando somos desonestos Geralmente numa discussão descontraída, é muito comum soltarmos algumas perólas que mais tarde nos fazem pensar na inconsistência que elas apresentam. Outro dia mesmo, estava eu discutindo sobre artistas contemporâneos com amigos e quando veio à tona o nome de determinado artista do qual não gosto (isto é, de sua música), afirmei que sua música era muito comercial.A princípio, essa idéia parecia fazer sentido, mas pensando com mais clareza, me ocorreu que esse não parecia ser um motivo muito real ou justificado para expressar um gosto pessoal. Além disso, dizer que essa ou aquela música é comercial soa tão vago que não raro, diversos músicos dos quais admiro se encaixam perfeitamente neste rótulo, pelo tipo de produção artística em que se empenham - e do qual não tenho qualquer objeção. Tempos depois, uma reflexão mais profunda trouxe a revelação que faltava acerca de tamanhas idiossincrasias: eu não estava sendo honesto em minhas conclusões. Sem que eu percebesse, assumi que um sentimento poderia ser explicado logicamente por um conjunto de premissas e, no entanto, o que me levou a essa antipatia pelo músico em questão foi o fato de simplesmente não gostar do tipo de música que ele faz. Eu estava racionalizando em cima de algo que já existia, inventando motivos que só surgiram em função do próprio sentimento que eu tentava justificar com minhas argumentações. Não foi a razão que me levou a manifestar tal emoção, mas esta última sim que me conduziu às idéias que lhe eram simpáticas e que emprestavam uma falsa imparcialidade às minhas conclusões. Tem certas horas que vale mais a pena ficar quieto. Como diria um sábio, de que adianta falarmos quando nossas palavras não são melhores do que o silêncio?
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Quinta-feira, Março 31, 2005
Amadurecimento? É no minimo curioso como não nos damos conta do quanto mudamos com o passar do tempo. Opiniões, idéias, gostos, prioridades... nada escapa a esta marcha silenciosa que se opera em nossas vidas moldando nosso caráter e nosso modo de ser, de sentir e de nos relacionar com o mundo. A mudança é às vezes tão imperceptível que somos pegos de surpresa, quando fazemos um balanço de nossa situação desde algum tempo atrás até os dias de hoje. Não que isso não pareça óbvio, mas é impressionante como nossa visão da realidade pode dar saltos descomunais em intervalos tão curtos como apenas alguns meses até o período de um ano. Pelo menos é assim que tenho me sentido desde que passei a entrar em contato com mais pessoas, a trocar idéias com elas e a conhecer em mais detalhes o universo mental em que cada uma delas está inserida, graças a estas redes de contatos pessoais que proliferam no mundo virtual. Por conta de tais interações, me foi possível redefinir conceitos, rever preconceitos, absorver novas idéias, formular novas opiniões ou juízo diferente sobre determinadas questões... enfim, o aprendizado foi, ainda é, e continua sendo proveitoso. No entanto, isso me leva a questionar o grau em que relações desta natureza podem influenciar nossa mentalidade sem que se leve em conta uma possível predisposição. Até que ponto, experiências pessoais e debates podem contribuir para um aparente amadurecimento de idéias? Afinal, são as circunstâncias que determinam nosso desenvolvimento ou somos nós que escolhemos quando devemos amadurecer? Ou, quem sabe, ambas as coisas?
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Segunda-feira, Março 07, 2005
Consumo e Filantropia O último sábado foi aniversário do meu pai e muito antes da data (na semana anterior, pra ser exato) tratei de comprar um presente pela internet. Escolhi o DVD 70th Birthday Concert de John Mayall & The Bluesbrakers, pai do blues britânico. Em geral, produtos adquiridos pela internet levam de 1 a 2 dias para chegar em casa, mas nesse caso, infelizmente, o produto não estava disponível e só chegou hoje. Embora tenha chegado atrasado, fiquei feliz da vida quando vi na contracapa do DVD que os royalties de sua venda seriam doados para o UNICEF.Daí fiquei pensando: mas que idéia interessante. Não que ela seja nova, mas até então nunca tinha me ocorrido da possibilidade de usar inteligentemente o próprio capitalismo a favor de causas sociais. Imaginem se inúmeros outros produtos tivessem sempre uma parcela, mesmo sendo ínfima, destinada a projetos beneficientes... imaginem ainda se todo artigo de consumo fosse submetido a essa filosofia de vendas. Exercer a caridade, daquelas que realmente fazem a diferença, é coisa que poucos fazem ou podem fazer... mas render-se ao consumismo é algo que ninguém consegue evitar (nem mesmo pode), pois alguém sempre tem que usufruir de algum bem pra viver. Então, por que não tirar proveito do segundo para praticar o primeiro? Por que não fazer do consumismo - um fenômeno de massas freqüentemente tido como um defeito social - uma oportunidade em alavancar a beneficência - atividade circunscrita a tão poucos?
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| Caros leitores, após um longo hiato, este blog está de volta a ativa. Dessa vez não vou prometer nada, mas tentarei na medida do possível publicar novos textos com relativa assiduidade para não deixar esse espaço abandonado. Como atrativo, o layout ganhou novos banners na coluna Hiperespaço, entre outras atualizações. 


E vamos em frente! :)
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Terça-feira, Outubro 26, 2004
Fidelidade Falar em fidelidade nos dias de hoje soa quase antiquado ou como heresia, tendo em vista os estranhos rumos que as relações sociais tomam faz muito tempo. Ser fiel pra alguns, é sinônimo de caretice, significa estar fora de moda. Repetem em uníssono (às vezes sem saberem por que): fidelidade é anti-moderno, fidelidade não está com nada. E como se já não bastasse, ficam inventando uma meia dúzia de argumentos para invalidá-la a pretexto de satisfazer caprichos mundanos. Tentam associar o conceito (preconcebido, diga-se de passagem) de fidelidade à idéia de prisão, da mesma forma que incutiram no imaginário popular que o casamento é uma instituição falida. Ora, quando alguém toma um princípio para si mesmo, a não observância deste preceito não implica na falibilidade deste último, mas na de quem supôs tê-lo assimilado corretamente. Assim é o que ocorre com o casamento, que é inegavelmente uma instituição sentimental e não se resume apenas a papéis assinados. Nesse sentido, há mais mérito num casal que vive junto informalmente e no qual existe respeito sincero e afeição mútua do que num par recém-casado mais preocupado com as impressões causadas pela solenidade matrimonial para adquirirem um certo status. Enquanto no primeiro, há união estável embora não formalizada, neste último imperam em grande parte as convenções sociais, não tardando para que a encenação encontre seu termo quase sempre de forma dramática. É graças a essa hipocrisia que muitos ideais são abandonados em nome do fracasso de quem diz tê-los experimentado inutilmente. Ao invés de refletirem honestamente, alguns preferem transferir a culpa para esses ideais a terem que reconhecer que erraram, num gesto misto de preguiça e vaidade. A maioria das pessoas conhece muito bem quais são as implicações e deveres da fidelidade mas poucas (um dia eu ainda espero estar errado quanto a essa amostragem) entendem qual é o seu real significado e os seus benefícios. Ser fiel significa possuir integridade para manter um compromisso com outra pessoa; é demonstrar confiança e respeito por outrem. Ser infiel é demonstrar contrariedade ou inaptidão para quaisquer compromissos daquela ordem. E quem, em sã consciência, assume tranquilamente a postura de não confiável para os outros? Alguns ainda podem argumentar que a fidelidade é uma característica cultural e que portanto pode ser discutida, contestada e até mesmo abandonada. Decerto que existe e deve sempre existir espaço para o debate, mas eu duvido muito que os partidários da promiscuidade representem algum novo movimento filosófico em prol de um ideal maior ou de correção de alguma injustiça social. Creio eu, aliás, que em sua totalidade representam apenas uma conseqüência da carência de importância a valores éticos na sociedade. É a doutrina do quero o mais fácil e imediato: para que passar por tantos sacrifícios em manter um relacionamento com uma única pessoa se eu posso facilmente me envolver com várias quando eu quiser e sem compromisso algum? Não é a toa que se fala tanto ultimamente em orgias, swing e outras modas libidinosas. Deixo claro que o que expus aqui não deve ser tratado como uma imposição mas como a apresentação de uma visão sobre o assunto. Cada um tem o direito de seguir este ou aquele preceito, porém fazer idéia errônea de algo e difundir um julgamento carente de reflexão sobre qualquer coisa é no mínimo irresponsabilidade. E a simples resposta ao questionamento da fidelidade (no parágrafo anterior) é a de que enquanto num relacionamento concupiscente o benefício é apenas imediato e fisico, a união fiel e estável permite não só prazer em todos os sentidos (físico, intelectual, afetivo e sabe-se lá quantos mais) como também disfrutá-los de forma duradoura. Enquanto em um só há paixão, noutro existe o amor de fato.
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